Walk & Talk: INTRODUÇÃO

Com origem literária, o Walk and Talk é um artifício utilizado pelo autor para ao mesmo tempo atingir dois objetivos: levar seus personagens aonde eles devem ir enquanto expõe informações importantes para a narrativa.Quando usado em mídias audiovisuais, o Walk and Talk ainda consegue um terceiro mérito: fazer com que os personagens pareçam ocupados. Sem tempo para sentar em um local do cenário e dialogar, os personagens caminham pelo estúdio, locação ou cidade cenográfica e trocam ideias essenciais para que o telespectador entenda o andamento da trama. Simples, não é? Nem tanto.

 

Gravar alguns segundos desse tipo de cena envolve um trabalho de coreografia enorme da parte do diretor, que tem como tarefa determinar onde a caminhada começa, termina, e em que momento cada frase é emitida. Já os atores, precisam encontrar um ritmo para atingir todos os marcos e ainda entregar de forma natural. Já não parece mais tão fácil, né? E nem estamos contando o trabalho da equipe por trás das câmeras. Profissionais de câmera, som, arte, entre tantos outros que acompanham o movimento.

The West Wing, série do final dos anos 90 que tratava do universo de funcionários da ala Oeste da Casa Branca, virou referência no assunto. Isso porque o universo político de assessoria do presidente dos Estados Unidos era o plano de fundo perfeito para a técnica de andar e conversar. Sempre havia um lugar para estar, um assunto para expor, e os funcionários precisavam estar sempre, muito ocupados. Devido à perfeita execução da técnica, o criador da série, Aaron Sorkin, ficou associado com o Walk and Talk e seguiu utilizando o artifício em todos os seus trabalhos (destaque para The Newsroom, os bastidores de uma redação de telejornal, exibido em 2012 pela HBO).

Mas afinal, porque escolhi Gilmore Girls para estampar esta entrada e não, por exemplo, alguma trabalho de Sorkin?

Pois bem. A série de Amy Sherman-Palladino, criada na mesma época de The West Wing, também utilizou ávidamente a técnica de falar e caminhar. Assim como a série de Sorkin, possui atores que executaram com maestria, mantendo o ritmo rápido e o diálogo afiado. Talvez Sorkin seja lembrado antes de Sherman-Palladino por ser um homem contando história de homens. Talvez sejam outras razões que eu desconheço. Mas a principal diferença que vejo é que Amy Sherman-Palladino entendia que na maioria das vezes, caminhar e conversar é um momento de se jogar conversa fora.

Gilmore Girls foi um programa sobre uma mãe e uma filha, sobre relacionamentos, família, disputas de classe, tolerância, trabalho duro e sonhos. A lista poderia seguir. Mas principalmente, Gilmore foi um show sobre pessoas. E pessoas que, como pessoas, falam enquanto andam. Falam sobre questões da vida, sobre a previsão do tempo, sobre problemas financeiros, sobre cultura pop, sobre o que tem para o jantar e às vezes têm grandes discussões. Elas não estão sempre atrasadas, estão vivendo. Andando. E conversando.

E essa é a ideia por trás deste espaço. Que seja mais uma mídia de reflexão sobre a própria mídia. Vamos falar de conteúdo audiovisual, das diversas plataformas em que ele se apresenta. Vamos torcer por personagens, reclamar de suas decisões, fazer observações bobas sobre reality shows e, quem sabe, de vez em quando ter grandes discussões. Watching and talking.

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