13 Reasons Why: REVIEW

Vamos de polêmica.

13 Reasons Why é uma série do Netflix, adaptada do livro de Jay Asher e produzida por Selena Gomez, que tentar falar com o público adolescente e ensina-lo a lição básica de que devemos tratar bem ao próximo. A séria funciona em dois espaços temporais: o passado, explorando os últimos meses antes da jovem Hannah Baker tirar a própria vida, e o presente, mostrando por sua vez, como essa atitude repercutiu na vida de seus colegas de classe. A construção em duas linhas do tempo que se cruzam evidência a premissa de que nunca sabemos exatamente como nossas ações atingem o próximo.

Reunindo milhares de fãs adolescentes pelo mundo, a série parece ter sido bem sucedida. Sucesso de público, na semana de sua estreia era o assunto em todas as rodas. Jovens, adultos e idosos, a série atraiu uma audiência diversa de telespectadores curiosos para saber do quais razões levaram Hannah Baker a cometer suicídio. Aqueles que seguiram com a série assistiram à representações de intolerância, de machismo, de abuso e de violência contra mulher. O intuito era de alertar, colocar o tema em pauta e evitar desdobramentos como os vividos pelos protagonistas da série. Mas assim como na história de Hannah, o conteúdo acabou atingindo o público de maneiras que não foram previstas.

Vamos voltar um pouco e falar de história. Antes de cometer suicídio, a personagem principal teria gravado 7 fitas cassete com razões pelas quais ela se viu sozinha, sem conseguir seguir. Sem alternativa a não ser tirar sua própria vida. Cada episódio narra uma dessas razões, gravadas em cada lado de uma fita. Com um piloto rápido e instigante, a série diz a que veio, falando do impacto da divulgação de fotos pessoais e de falsos rumores sobre a vida sexual de alguém. A repercussão dos casos nos corredores do Ensino Médio colocam em pauta discussões como objetificação da mulher, machismo, cyberbullying, entre outros temas relevantes à sociedade atual.

A série tem também méritos técnicos que devem ser notados: como as belas passagens temporais. Ao corta entre uma cena do passado e outra do futuro, o diretor procurou estar sempre no mesmo ambiente, para que o telespectador pudesse notar a mudança no espaço, além da mudança nos personagens.  O mundo quando Hannah Baker estava viva, apesar de hostil, era mais afetuoso, retratado com tons mais quente. Quando migramos para o presente, a tonalidade fica azulada, e o telespectador consegue ver também o peso que os personagens carregam. Ancoradas por técnicas de colorização e um band-aid na testa de Clay,  essas transições temporais semelhantes àquelas ultilizadas também no longa Sing Street, são um deleite a parte.   

A trama, contudo, sofre de ondas e vidas, a narrativa se apresenta por vezes arrastada. O arco principal da história da lugar a uma serialização da história que retoma sua glória ao se aproximar do final da revelação do motivo que envolve o mocinho, Clay, na dor de Hannah. Com todas as peças do quebra-cabeça em mãos, a série volta a nos lembrar porque estamos assistindo e a partir daí é um tapa na cara atrás do outro. 

Alerta de spoiler! O retrato das cenas de violência sexual não esconde nada, nem trata do tema de maneira poética. São cenas montadas para que vejamos o suficiente para chocar, sem traumatizar. É feito para incomodar, para enjoar as pessoas. Abuso não deve ser confortável de ver. Cabe, contudo, o alerta de que tais cenas podem, sem dúvida, servir de gatilhos para quem já passou por situações parecidas (o que, infelizmente, são mais mulheres do que gostaríamos de admitir).

Outra cena que merece ser destacada é a cena onde Hannah comete suicídio, dentro da banheira de sua casa. Merece destaque devido à sua roteirização e ousadia. Devido a escolha artística de manter a cena longa, grafica, rica em detalhes de planejamento e execução, é um ponto muito abordado pela crítica, que diferentemente do público, não se viu tão pronto para abraçar a série. O que mais incomoda na repercussão que o tema suicidio e essa cena, em específico, tiveram é o silêncio em respeito ao assédio que levou a adolescente a recorrer ao suicídio.  O público se chocou com a cena e repercutiu a maneira como Hannah planejou sua morte e como cortou seu pulso, ao invés de debater sobre as 13 razões. Os 13 porquês.

Da mesma forma, podemos dizer que a falha principal do seriado é que talvez ele tenha falhado ao endereçar a mensagem: atingindo um público mais amplo, mais diverso e mais velho do que o planejado, a mensagem tenha se perdido no caminho. Como um telefone sem fio. A polêmica em torno da série foi enorme; o assunto foi proibido em escolas no Canadá e o Ministério Público Brasileiro aconselhou o público a não assistir. 13 Reasons Why é um exemplo de entretenimento que busca o sentido original do termo, distrair e levar o espectador a algum lugar. Fazer com que a experiência acrescente algo para aquele que a segue. Hannah Baker era uma menina que, apesar de sofrer situações adversas, tinha  condições de resolver ou trabalhar seus problemas – mas que acabou se fechando a ponto de não enxergar outra saída além do suicídio. É uma série de alerta: sobre o comportamento com o próximo, sobre a tolerância e sobre, sim, machismo. É no mínimo irônico que os governos proíbam alunos de conversar sobre o assunto na escola quando tudo o que a série quer é fazer com que o adolescente se sinta confortável para se expor. Ao cessar o debate, o governo mostra porque ainda precisamos de um programa de TV nos dizendo para sermos “legais” com o próximo.

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